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Sobre desapego

Você sabia que para cada encomenda de peças de cerâmica que recebemos nós temos que calcular uma perda de 20% de peças? Isso por conta de rachaduras que podem ocorrer ao longo do processo ou até mesmo esmaltação imperfeita.
E sabia que boa parte das peças que perdemos nem sempre podem ser usadas para o fim que foi projetado?

O mesmo vale para um processo de criação de design. Já parou para refletir que toda vez que você vê um produto ou arte na lojas ou publicidades, existiu um trajeto longo para sua concepção e muito provavelmente não era a primeira versão que foi pensada pelo designer?

O post de hoje é sobre o desapego.

O desapego na maior parte das vezes é associado a ideia de que algo não vale o esforço, que não é importante o suficiente para ser levado a sério. Entretanto, o desapego, tanto no universo da cerâmica e quanto no design é o que nos leva a evoluir ideias e observar nossos erros e buscar soluções melhores. Não é a falta de importância é exatamente o oposto. É entender que algo é tão importante que vale o esforço de desapegar da ideia inicial e evoluir. É tentar observar o que não funcionou e porque não funcionou para então, buscar respostas mais apropriadas.

E esse foi um dos maiores aprendizados que tive quando saí da faculdade. Até então, minha tendência sempre foi a de me agarrar a elas defende-las até o final. Ninguém nos ensina isso ao longo dos 4 anos de curso, mas esse impulso do excesso de apego torna o processo de criação demasiado árduo e doloroso. Além disso, esse comportamento nos faz “cegos” a deixamos de olhar para um mar de possibilidades ao nosso redor.

Porque nos apegamos tanto?

O excesso de apego a uma ideia ou projeto pode, em muitas vezes, ter um fundo narcísico, ou seja, excesso de vaidade. É a ânsia que nos faz querer controlar tudo e ditar o que é certo e o que é errado.

Assim, é o desapego que permite que compreendamos que, em muitos momentos, não temos controle das coisas. Que os processos são variáveis, que existem múltiplos fatores que influenciam uma criação e que temos que aceitar que não sabemos de tudo e é preciso saber adaptar.

Peças e molde quebrados após acidente no ateliê. Ateliê Marte, 2021.

E na cerâmica?

Dentro do universo da cerâmica, por exemplo, existem fatores internos e externos que influenciam no resultado final de uma peça. Se o tempo está demasiado seco e quente, a peça pode secar muito rápido e rachar, se está muito úmido pode demorar muito tempo a secar e atrasamos os pedidos. As peças podem quebrar após prontas, podem quebrar antes de prontas, o esmalte pode escorrer, pode gerar bolhas, pode retrair, temos dias ruins em que as mãos não estão boas para modelar…enfim, são tantas armadilhas ao longo do processo que se você se apega muito ao projeto em seu início pode se frustrar quando chegar ao final do processo.

Na minha opinião, uma das maiores belezas do processo de criação de qualquer coisa não está somente no objeto final, está também na jornada até chegar nele. Nas pesquisas, nos testes, nos erros e acertos. E por essa razão, um dos meus mantras pessoais é exatamente isso: aprender a aproveitar mais a jornada e chorar menos pelos erros.

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